6/15/2015

ainda de pijamas recolhíamos os destroços da noite anterior. sem distinguir a manhã entre o pó e as lágrimas, empilhamos os corpos no que restou das ruas. filhos legítimos da dor. os aviões ainda cortam um céu cinzento do qual restamos. olhe o futuro acaba de acontecer enquanto as crianças morrem; veja acima das nuvens e finque os pés no chão. há um vendaval em sua direção, não arranque as flores do jardim secreto, não espalhe as pétalas desta verdade, proteja-se no quintal, entre as ervas daninhas e os girassóis; é preciso aguá-los; igualmente. se um dia vir por quem, afinal, os sinos dobrem, esteja certo que estará longe daqui, onde não pôde dobrá-los. nada substitui o sorriso de uma mãe diante dos filhos vivos. a trilha segue os rastros dos cães famintos ao longo da estrada; o frio é inevitável e o couro não resistirá ás farpas e latidos; teremos que sobreviver na noite sem rumo. à frente tudo ou nada. ainda que amanheça para todos e o sol nos esquente o semblante, nos restará o desfiladeiro para a loucura, a glória insana dos que sobrevivem ao terror. ninguém será jamais como antes, e não nos reconheceremos, estranhos acuados nesta pequena cabana. espere querida pelo rio vindouro a desaguar pedras pelo caminho, cultivaremos nossas flores rupestres na memória de uma pétala rubra. nos lembraremos de nossos filhos? já não seremos pais, nem irmãos, teremos que cruzar a cerca de arame farpado à nossa própria procura. presos no passado brilhante, névoa seca sobre a pele d'água, vinho esquecido pelo paladar; nos recriaremos nos retalhos ainda sãos, que nos aquecem agora, nesta noite gélida e cruel, onde meus pés não encontram teus passos e estou sozinho tentando ser o que és. MEMÓRIA DE UMA GUERRA. PELAS CRIANÇAS QUE NUNCA CRESCERAM ...