4/23/2009

Mimetismo Divino

Se você ficar três horas à beira de um rio com os pés na água

a correnteza te torna leito. Quando então de braços abertos

darás limites às margens a caminho do mar, no veio do chão.

Pela praia seu rastro lambido pelas ondas súbito se apaga.

Se soprares no vento uma palavra de ordem estejas certo

que se fará ouvida. Tens no gesto a alma de um furacão.

Não deves se misturar aos mortais, seja elemento e só.

Traz angústia ver um homem definhar, uma criança

desfalecer, a Tuberculose definir alguém, "é de dá dó".

Seja Deus, por favor nos salve, não nos dê esperança.

RECORDAÇÃO

Tem que haver um tempo em voltamos à infância.

Uma tarde para fazer uma pipa ou para jogar bola.

Memória é tudo que resta daqueles dias, e a ânsia

em querer voltar àquela manhã, fugir da escola.

Melancolia é o alimento da saudade, querer voltar.

A eternidade está nas coisas vindouras. Importante

é ser lúcido para perceber que o essencial é estar.

A ausência é esta vontade daquilo que era antes.

Os amores se vão, as pernas se vão, aqui fico Eu.

Entre fotos e sorrisos, no silêncio de um dia.

De mim só tenho lembrança, outra fotografia.

4/15/2009

CRONUS DEI

Trouxe o tempo para a estante de livros. Envelheceu

entre as estórias e as orelhas, foi intérprete não de si,

mas de outros, muitos que fizeram parte desta vida,

deste lugar que construíram com as mãos, de alma.

Feito de finitude e atemporal, circula um só Deus,

que engendra o moinho celeste e o quadro de giz,

onde o destino é escrito. Resta a memória aguerrida

ao homem, ventral a uma mulher, tempestade calma,

que nina sua filha e acorda seus cães, noite serena,

e dez galos se anunciam pela madrugada. Sem lua,

na escuridão, tece a manhã através de um verso.

Vai rente ao chão, o cio derramado pela cobiça,

e um séquito desejoso e fulgás. Durante a cena,

ela se recusa ao papel, apaga os fonemas de sua

fala, emudece seus atos, dá um grito ao inverso

e cai. Deixa ao tempo a eternidade implícita.

4/10/2009

FLUIR

È preciso separar-se do resto de alguém

para se esquecer por outro. Se doar então,

sem meio nem chegada; ir ainda mais além.

O que resta de si é para sua orientação,

para que não se esqueça do outro lado,

que foi seu solo, sua fé e sua herança.

O Sujeito se refaz, a alma nem tanto.

Por fim busca o encontro, o afago,

se afugenta num Objeto, se cansa,

se desprende e esquece o quanto.

4/01/2009

Para Layza adormecida. Para Maria Luiza acordada.

Só há o cheiro de pedra, o odor de terra molhada,

de solo batido, estrada-de-chão. E um verde nú,

que envergonha os olhos de tanta beleza; nada

se compara ao olhar. Diz tudo de qualquer um.

Ela abre os olhos frente a mim. E a chuva cai

de encontro à janela, entra uma luz abafada

com insetos oníricos, e tantas cores e fadas

que a vida agorá é só imaginar, feito pai,

feito mãe, eternamente ...