" Conta a lenda, que a Mãe Catirina, grávida desejosa, anseia por um saboroso
prato regado a língua de boi. Pai Francisco, preocupado em satisfazer a vontade
da amada esposa, mata o melhor animal de seu patrão e foge. O dono da fazenda,
indignado e revoltado com tal afronta, resolve fazer justiça e manda os vaquie-
ros e os índios saírem a caça do fugitivo. Ao ser pego e preso, Pai francisco
pede socorro ao pajé, que realiza um grande ritual ressuscitando o boi para a alegria de todos."
Ressuscitar, e preservar, a memória é uma das maneiras de construir a Histó-
ria. Com esse objetivo a comunidade quilombola de Machadinha, localizada na cida-
de de Quissamã, no norte do Estado do Rio de Janerio, formada por descendentes de escravos, vem através deste trabalho revelar a importância das tradições cultura-
is na preservação da identidade da comunidade diante do contemporâneo, no intuito
de ser referência pela perpetuação dos costumes centenários e divulgação de seus
patrimônios culturais, tais como o "Boi Malhadinho", o jongo, o fado, a culiná-
ria, a religião, o artesanato e as estórias nos finais de tarde, que levam para longe a imaginação da gente.
"Minha mãe disse que quando morresse uma das filhas teria que levar adiante a
tradiçao dela."È com esse espírito que a população da Fazenda Machadinha, cons-
truída entre 1823 e 1867, por Manoel Carneiro da Silva, o Visconde de Ururaí, re-
presentada por 42 famílias de afro-descendentes, cujas tradições resistem ao tem-
po, e são as principais responsáveis por manter a cultura trazida pelos escravos
angolanos na época do Brasil Império para a região, mantém íntegra a memória de
seus antepassados, repassando a cada geração o orgulho do que são e a paixão pelo
representam.