De frente para uma xilogravura no interior de um bar no subúrbio do Rio.
Esta é a situação. No canto mais escuro da noite carioca, escuso e fétido,
um gesto cruza a vida. Constrói e invade mar adentro, feito navio pesqueiro.
Meu olhar discreto e desviado observa o vulto. Sombra e um cão no cio;
no balcão conto estórias a uma estranha travestida junto a todo séquito,
perfilado na entrada, escada larga e luminosa, que deságüa por inteiro,
no átrio sereno desta árvore centenária, desenraizada pelo tempo,
há muito aquela que sustenta o céu, que oxigena a luz para a Aurora.
A música ecoa nos becos viscerais até o tímpano ileso e desavisado.
Um policial à paisana, embriagado e exausto, beija a nuca do vento
e a fúria de um temporal. Sobre o palco quase de improviso, dança
uma linda mulher semi-nua, num fardo cigano, no isento da hora.
No silêncio instantâneo de um sibilo cintilante no breu do telhado.
Cai ausente de ar, sobre o dorso de uma "dama", a última Esperança.
Desfalecida a vítima já não é aplaudida. Fica o imóvel e o Pavor.
O poliocial afasta o público, o barman oferece outro drink, e Eu?
O tumulto impera pela palavra no silêncio inaudível da acusação.
De repente o poeta saca um verbo e abate o ignóbil, a besta da Dor,
o sorriso falso de uma alegoria campeã. O Estandarte desapareceu
e só resta a Mim uma pedra d'ágüa para enfeitar com sangue o balcão.