Nesta mesma hora, ontem, aqueles insetos
entravam pelas janelas, trazidos no vento,
esvoaçados pela sala, sem direção, isentos
de luz, no escuro horário do dia, inquietos.
Debruçado no parapeito rupestre e frio da
manhã, coletando borboletas matinais, eu
recomponho o mundo na cor rubra do céu
que se reinicia, na roça, pela saia molhada,
a cachoeira que jorra na gente um rio; deu
para ver aquelas fadas, coloridas, e ao léo.
Atravessei a porta da cozinha para a copa.
O azulejo do chão, rachado pelo temo, frio,
está orvalhado, esta claridade sobre o pão
atravessado pela fome é a mesma que o cio
canino exala, é um gesto doméstico, troca;
No inseto que acorda, atordoado num chão
de tábua corrida que nos leva até ao quarto
onde adormeci ontem sob o som da chuva,
num tempo de sonhar, sóbrio e estupefato.
Neste instante em minhas mãos, nas luvas.
Desci pela escada dos fundos e o cão latiu.
O retireiro vinha devagar, a vida era lenta.
Tomei do leite, quente, ubre que inventa a
manhã naquele sabor. O gado então seguiu
a estrada até o pasto. Eu ainda era pequeno
quando a vida se resumia ma viver; sereno
que cai pela tarde da gente, eterna e pueril.