3/10/2007

Dia bucólico

Nesta mesma hora, ontem, aqueles insetos
entravam pelas janelas, trazidos no vento,
esvoaçados pela sala, sem direção, isentos
de luz, no escuro horário do dia, inquietos.

Debruçado no parapeito rupestre e frio da
manhã, coletando borboletas matinais, eu
recomponho o mundo na cor rubra do céu
que se reinicia, na roça, pela saia molhada,
a cachoeira que jorra na gente um rio; deu
para ver aquelas fadas, coloridas, e ao léo.

Atravessei a porta da cozinha para a copa.
O azulejo do chão, rachado pelo temo, frio,
está orvalhado, esta claridade sobre o pão
atravessado pela fome é a mesma que o cio
canino exala, é um gesto doméstico, troca;
No inseto que acorda, atordoado num chão
de tábua corrida que nos leva até ao quarto
onde adormeci ontem sob o som da chuva,
num tempo de sonhar, sóbrio e estupefato.
Neste instante em minhas mãos, nas luvas.

Desci pela escada dos fundos e o cão latiu.
O retireiro vinha devagar, a vida era lenta.
Tomei do leite, quente, ubre que inventa a
manhã naquele sabor. O gado então seguiu
a estrada até o pasto. Eu ainda era pequeno
quando a vida se resumia ma viver; sereno
que cai pela tarde da gente, eterna e pueril.