12/23/2008

Madrugada

Ainda é noite. Quase não resisto ao cansaço,
neste vão esforço de continuar lúcido, atento
ao descaso da luz frente à sombra, ao frasco.
Minha alma descança, é pena deixada ao relento,
sem gesto que escreva ou suspiro que defina.
Meu sangue é o instrumento, é a caligrafia.
Um corpo adormece no silêncio. Pela cortina
retiniana de um sonho nasce então, o dia.

12/08/2008

De frente para uma xilogravura no interior de um bar no subúrbio do Rio.
Esta é a situação. No canto mais escuro da noite carioca, escuso e fétido,
um gesto cruza a vida. Constrói e invade mar adentro, feito navio pesqueiro.
Meu olhar discreto e desviado observa o vulto. Sombra e um cão no cio;
no balcão conto estórias a uma estranha travestida junto a todo séquito,
perfilado na entrada, escada larga e luminosa, que deságüa por inteiro,
no átrio sereno desta árvore centenária, desenraizada pelo tempo,
há muito aquela que sustenta o céu, que oxigena a luz para a Aurora.
A música ecoa nos becos viscerais até o tímpano ileso e desavisado.
Um policial à paisana, embriagado e exausto, beija a nuca do vento
e a fúria de um temporal. Sobre o palco quase de improviso, dança
uma linda mulher semi-nua, num fardo cigano, no isento da hora.
No silêncio instantâneo de um sibilo cintilante no breu do telhado.
Cai ausente de ar, sobre o dorso de uma "dama", a última Esperança.
Desfalecida a vítima já não é aplaudida. Fica o imóvel e o Pavor.
O poliocial afasta o público, o barman oferece outro drink, e Eu?
O tumulto impera pela palavra no silêncio inaudível da acusação.
De repente o poeta saca um verbo e abate o ignóbil, a besta da Dor,
o sorriso falso de uma alegoria campeã. O Estandarte desapareceu
e só resta a Mim uma pedra d'ágüa para enfeitar com sangue o balcão.

12/02/2008

Eu leio pedras e separo a ágüa com as mãos.
Coroei Você para sempre entre dois rios.
Tenho asas seletas no Borboletário Municipal.
Ganhei ares na troca de um beijo; igüal
quem não existe neste instante, está nos vãos
discretos dos olhos da fera, fêmea no cio.

Tenho naquilo que transforma semblantes,
o impulso febril e obtuso que alcança raso
a superfície insustentável de um adeus ...
Oculto no inverso de um abraço, por acaso.
Réplica inédita de um ato sutil, doravante
fosse único e rude, isento dos Seus.

11/23/2008

É preciso estar febril para sentir o aroma exalado
deste corpo que espera um instante para sempre.
Elabora o silêncio entre o desespero e a calmaria.
Se dantes fora esperança agora é qual um legado,
cuja obra inacabada neste instante, neste ventre,
é a eterna construção do grito que me libertaria.

Não há palavra que alcance sua significância pueril,
ou gesto que ampare seu vôo inaugural, sua estréia.
Seu palco é minha alma, chão de tantos homens,
em muitos de mim. Há no movimento estático ardil
e leveza para penetrar o jardim secreto, que some
no interior invisível e exposto desta imagem etéria.

11/15/2008

Que Homem é este que circunda o Mundo?
Caminha entre as montanhas mais altas
de Minas com seu violão e voz, que canta?
Será Milton ou Flávio? Retrata do fundo
de tudo, raspa de superfície e rapadura.
No engenho da palavra que me falta
para definir o gesto circular sem inseto,
da luz desamparada pelo vôo; loucura
que concerta o óbvio. Música que estanca.

BRASIL: MÃE DE TODOS

Do asfalto sem nome o morro é alto e iluminado.
Quem vê a lua de perto se deslumbra com a cor.
Dançam as crianças inocentes na roda de samba,
corre o malandro entre os vários becos do Estado.
Há uma luz fosca que ampara o dia, que arromba
a noite num flerte entre a desigüaldade e o Amor.

Na pletora do invisível revela-se o anônimo sutil
de uma Nação desconhecida, trajada na milícia
que ronda o comum, que cerca toda a multidão
com flores inodoras de uma realidade fictícia
chamada Democracia. Num país chamado Brasil.
Cuja coragem é a órfã desamparada pela coação.

O morro não suporta o condomínio fechado;
o jazz é o responsável pelo funk da periferia.
Cresce bandido, político e santo, traficante
de igüarias burocráticas; ilusionista no sinal
vermelho, circense no ato normativo fadado
a ser autônomo, abstrato, sem lastro infante,
morto na pouca luminosidade da covardia.

Dois anjos negros se saciam na sede de outro.
Alheios ao carnaval e à chacina. Bebem ouro
no cálice violado do proibido, transgridem a fé.
"Tomam a boca" com o argumento de um fusil.
No morro os anjos vão para a puta que os pariu.

11/12/2008

Que olhar para desvendar o não visto? Qual elo entre o invisível e a imagem?

Somente a emoção revela o desconhecido. O crânio exposto da noite escura.

A mão desamparada sobre o ombro nú da ciência, a evolução sem linhagem,

o sentido inexato da direção equivocada, toda certeza absoluta, a loucura ...

9/21/2008

ESSENCIAL DESNECESSÁRIO

Sou o projétil sutil que resvala a face do Papa,
o colete peneirado na noite do morro, a capa
de um jornal sem notícias, a foto de agora;
sou a sede na boca de um recém-nascido,
o colostro seco da inanição, sopro perdido
no vendaval. O gatilho e a matilha lá fora,
à espreita me exponho, dou o bote fatal,
dilacero a manhã com estrelas perdidas,
rego o furacão com pétalas e sal ...
Não existe lugar onde Eu não seja vida.

9/09/2008

PARA SABER

Desatina o coração o sopro tardio,
a febre terçã, o delírio sóbrio enfim.
No instante em que o cão e o cio
habitam o homem, híbrido jasmim.

Me delibera e permite, me escolta;
sem força física, até o cálice sagrado.
Beber seu verve, saciar sem volta
a sede desumana; do homem legado.

9/02/2008

O instante vindouro é o último pedaço de um animal.
Uma eterna fragrância, um fonema suspenso pelo ar.
Um sussurro. Oxalá seja uma prece, um canto gutural,
que se espalhe feito pólem e fertilize pelo ato de plantar.

8/03/2008

Naturalmente

Tanto bambú e algumas borboletas azuis...
Uma obra-de-arte exposta, enfoque e foco,
à altura de um abraço, acessível. Então toco.
Tateio com um sopro, agrido feito tempestade.
Dissera na tarde nublada ser o sol. Quem fui
esteve na memória e se esvaiu. Não é tarde!!!

À espreita de uma sombra; a um movimento
pueril. Adormecido ao meio-dia, gosto noturno
pela manhã de abril. Madrugo com minha alma,
vespertino ao me tardar, anoiteço e invento,
na boca farta de um Amor maior. Quando diurno
pela aurora infante, crio vício e sonho, com calma...

7/21/2008

Diante de ti ...

Me apresente a Afrodite e Eu me curvarei diante de ti.
Güardião de tantos Templos, várias varandas, jardins.
Findo ao pôr do Sol o líqüido lívido em tuas vasos ocres.
Erguido como estátua, adorado em seu cavalo fátuo; assim,
como um instante breve, mas eterno, à frente de si ...
Anfitrião e intruso de um átrio baldio, um ssopro forte
no tímpano íntegro da vaidade. Não há luxúria, ou nudez.
São vestes em uma Deusa híbrida, símbolos de culturas
efêmeras inesquecíveis. Um Ser insaciável diante de ti,
que saliva mel e entorpece teu corpo, te desnuda de vez,
e adormece olhando. Traído pelo pecado, de pele escura,
descobre o branco e o proibido. Eunuco erétil, infante.
Imagino o leito artesiano de minha alma, esculpido
em pedra, para sempre ... Diante de todo o essencial
em tuas mãos; do gesto abundante e generoso, atrás
do tempo que nos rejuvelhece, de tanto ser erodido
pela língüa eólica que percorre seu punho irado, qual
avarenta tempestade vespertina, cuja inveja vorás
de uma manhã ensolarada, leva consigo o Gesto brutal.

7/03/2008

É PRECISO RECUAR!!!

Não avancem seus exércitos! Recuem!!!
O vale esconde seus segredos e ruínas.
Observo ao caule de uma araucária só,
entre pedras milenares, o destino em
se querer conquistar, as aves de rapina,
os cadáveres recentes do futuro. O pó.

È preciso decidir se o gesto nos valerá.
Meu legado está nas palavras, quieto,
no silêncio estridente deste vendaval.
São tantos os jovens na infantaria; há
mulheres e crianças órfãos neste Gesto.
È preciso recuar dos tigres no bambuzal.

Lá embaixo onde a vida se refaz, no oco
da multidão, está o Rei. Numa armadura
de prata e brasão de ouro, sem estandarte.
Não existe causa que justifique os poucos
avanços da guerra. È preciso recuar! Já!!!
Eles não procuram saída, escapatória, ar
ou amplidão. Parados no átrio da loucura,
aguardam o momento em que a lâmina parte...

São bravos, heróis e inocentes. Dão a vida
por um soberano, honrados em tê-lo servido,
em morrer em paz. Nada vale ser eterno,
se não for lembrado. Um nome numa lápide
é como risco de uma estrela no inverno
frio de uma lembrança. Uma luz erguida
para denunciar um universo esquecido.

6/16/2008

PARA SEMPRE

Descobri outro tesouro, que não foi perdido.
Cujo dono sou eu. Que cresce em outro, nela.
É ter sinônimos em objetos únicos, aqüarela,
que retrata o mar, o barco e a rede, a mim,
a levar uma mensagem nossa, e um pedido.
O Amor é sustentar a tempestade e o jasmim.
A chuva depois de amar. O odor floral ...
O aroma que tem a terra quando chove. É,
como ter um filho, engravidar junto, e tal.
Nascer de novo, no corpo de outra mulher.

6/06/2008

MINAS AOS MONTES

Me coloco entre o trem e a alma.
Veloz, vence o cansaço, a calma.
DE VAGAR SE VÃO OS ANOS...
UNS AO LÉO, outros orientados.
No estreitamento de um engano,
pela voracidade de uma certeza,
estão os minutos num só estado.
Numa única vez. Certo de sua presa.
Recolhido e atento, à espreita e só.
Ainda à frente de um trem, veloz...
Ordenando sonhos, soprando voz
nos lábios beijados, um Amor maior.
Me esquivo do trem, canto Milton,
no clube da esquina, no bar, aqui.
Mais ao norte daquele um, o som
que se ouve não é mar; é vento.
É folha que se debate. _ Beijar-te
é tudo, todos, com todo o intento.

5/25/2008

SÓ ISTO.

No momento busco só as imagens.
Me importo com o contexto, mas
me basta ver. Me detenho assim,
de repente, diante de selvagens,
todos nús, pintados a óleo, jazz...
No corredor centenário, enfim.

Vestidos de branco, atados e"sós".
No tambor que marca a tarde e
se escuta então, ao longe, lembrada
em um estandarte vitorioso, e só.
Ùltimo de uma geração, e arde
toda rubra, feito face condenada.

Há beleza e força na jóia negra, pura.
O domínio do traço e do movimento.
No claustro do mar navega um rei. É
original quando dança. Toda candura
repousa em seu ventre, vai ao vento,
repleto da sensualidade de uma mulher.

Há um silêncio e um vigia. Os outros dormem.
Nunca force a poesia, não acorde ninguém.
Estaremos nos sonhos, naquilo que foi visto,
que foi contado, em que se acredita o Homem.
Houve um tempo de preconceito; também,
se for necessário, mude o Mundo. Faça isto!

5/18/2008

ALGUÉM DE NÓS

Toda criatura tem seu propósito, o seu valor.
Aquilo que se vale é o quanto fazemos falta.
A parte que somos do essencial. Para quem?
Nem todo ser tem futuro. Nunca sentiu Amor.
É preciso amparar as crianças. Tocar a flauta
que leveria a Peste para longe. Ser um alguém.

Não há quem nos guie, mas há o que nos guiar.
_Indigne-se! Diga alto o que não fará! Faça algo!
_Não é só pelas baleias, pela Mata Atlântica, o ar,
nem pelas nossas crianças, é pela chance de nascer!!!
Toda criatura quer viver. Só definha quem já, logo,
se mostra desnecessário, quem nunca vai ser!

5/15/2008

GESTO DIVINO

Corta com a lâmina d'ágüa o profundo que há no mar.
Inverte a manhã para que entardeça agora. Senhor
de todos os que sonham com a liberdade, é capataz
e amante; faz chover quando adormece, faz sonhar...
Só não alcança a alma, onde repousa seguro o amor.
Quando o indivíduo tem arbítrio, assume o que faz.

Cruza a noite com seu cometa endiabrado. Tem lua
quando sorri. Quando "faz amor" o luar aparece ...
Percorre longa distância dentro de si, à sua procura.
É a lâmpada que ilumina o papel em noite escura,
a mão que escreve um poema, aquela que é sua,
e a mão Dele, calor que no frio anônimo nos aquece.

5/11/2008

IMPRESSÃO NA MADRUGADA

Só os cães ladram no silêncio urbano da noite.
Há uma brisa que paira sobre as folhas e a flor.
Eu vejo uma mulher negra amamentar javalis.
A lua se reflete no soro da via láctea, e foi te ...
e veio a aurora, rubra, abundante, quase indolor,
esvaindo-se no anônimo, naquilo que eu não vi.

Ela se banha numa cuia, na sede que a boca tem.
Vestida com um manto vermelho ela amanhece.
Ouço simultaneamente o "grito" dos galos, e só.
Toda criação alimentada. Adormeç ...

2/06/2008

VARAL CELESTE

Naquele varal, sobre a rua
sem tráfego, o arco-íris_
plantel de cores, na pele nua
da tarde o mistério adquire
contornos de gente; vestida
de criança no azul celeste,
voa, amparada e erguida
pelo vento, parece uma veste,
lugar que o futuro brinda,
todo dia, e faz sombra ainda.