12/26/2009

ANOITECER

o abajour ilumina a fronte exausta da razão.

há o breu ao redor, que oxida todo o olhar;

a palavra nem alcança a boca,,, emudecido

reluta pelo verbo até que se apossa então,

de um suspiro último, qual segredo sido

dito a ninguém, isento da luz a iluminar

o Mundo, nunca sabido nem lembrado.

O coração também envelhece, a alma ...

Pela claridade que se finda no futuro

baldio em mim, acaricio em meus lábios

a boca úmida da esperança, com calma

e plenitude, quando enfim, está escuro.

12/03/2009

trecho do livro

.. me antessipei ao tempo e me postei frente ao episódio da tarde, materializada por estas raízes, que escalam a superfície lisa das paredes externas, entre janelas de vidro e o lilás que é o ar, espalhado num céu ainda azulado, ao final de um beco centenário que anuncia a noite, ignorada pela luz dos lampiões, na lucidez branca que alcança meus caninos sedentos. o odor que invade minhas narinas denunciam a presa, distraída pelas palavras incompreenssíveis dos nativos, vulnerável e suculenta, pulsátil e cheia vida e fulgás. observo encostado á beira de um portão de ferro fundido, enegrecido com o uso e a oxidação diária, constante, pertencente ao lugar, feito esqueleto de árvore, fixado à construção noturna de um imortal.

11/28/2009

NO OSSO DA IMAGEM OS OLHOS SE PERDEM,

FEITO HORIZONTE DE GESTO, ATRITO DE MÃO.

OCULTO O ÓCIO SE FAZ E OS SILÊNCIOS VERTEM

O BERRO NA GAMELA ARBÓREA DA SOLIDÃO.

À PELA D'ÁGÜA É QUE SE APROFUNDA O RIO,

NO ÍNTIMO DO LEITO CORRENTEZA SE FAZ,

SE ARRASTA AO MAR O QUE HÁ DE RIBEIRO,

NO QUE RESTA DE HUMANO FRENTE AO CIO

INVÁLIDO DA PEDRA EM QUERER IR ATRÁS

DOS PEIXES ONÍRICOS QUE SÃO VERDADEIROS.

VAI. SEJA O CHEIO QUE TRANBORDA BALDIO,

O OCO FECUNDO QUE INAUGURA UMA VIDA,

O VÔO DESALADO DE UMA ARPIA FERIDA.

11/24/2009

É FIM DE UMA TARDE ENSOLARADA, VERTIDA NUM AZUL INSONE.

POR POUCO NÃO BEIRO A VIDA, NEM APROVEITO ESTE INSTANTE,

EM QUE ME FINDO DE REPENTE. RESTA O PALADAR E UM AROMA

QUASE MAR, ANTEIOR À ONDA DERRADEIRA, À ESPERA DE NOME,

QUE TRADUZA A SI MESMO, DE QUEFINA UMA ALMA ARFANTE

COM A PRUDÊNCIA DE QUEM ESCOLHE A VERDADE E A PROFANA.

HÁ UM COMPLÔ CONTRA A LOUCURA NO ÍNFIMO DA SANIDADE.

LÚCIDO E ESTÁVEL, FLUTUA UM GESTO ATÉ O CONTATO FACIAL,

PELA CARÍCIA DESATENTA, A PALAVRA NÃO DITA E PELO DESEJO,

É QUE SE FAZ O LÚMEM DO AMOR, O INVISÍVEL QUASE DECLARADO

NA MANHÃ QUE SE NUBLA E CHOVE, PARA O ACALANTO E O BEIJO,

INVENTADOS NAQUELE AMBIENTE ONÍRICO, NUM FEIXE IRADO

COM OS SONHOS DE UM POETA DIANTE DA INSANIDADE DA RIMA.

SE FUI SÓBRIO OU ÉBRIO, PERDOEM-ME O EXCESSO, SE DESIGUAL.

NÃO ACREDITO EM DESTINO, NÃO TENHO FÉ, MAS SIGO MINHA SINA.

10/28/2009

CONTINENTAL

ÀS VEZES USO PATAS PARA ACARICIAR ORELHAS,

TENHO ENTRE OS DEDOS NADADEIRAS E FERRÕES.

SOU MORTAL QUANDO INGERIDO. POSSO VÊ-LAS,

AS ASAS, NUM IMPLANTE ESCAPULAR E VIRIL.

PARA A CORRESPONDÊNCIA TENHO MIL ANÕES

INVISÍVEIS E UM TIGRE DE BENGALA INVÁLIDO.

PARA OS OLHOS ESCOLHI OS SONHOS INFANTIS.

ENTRE CORES OUTONAIS DEIXEI CAIR O AZUL,

MANCHEI A TEMPESTADE COM UM CÉU DE ANIL,

FLORI DE UMA PEDRA, FUI AO CHÃO, CORRI

COMO UM SELVAGEM, TENHO O PORTE ESQUÁLIDO

DE UM DEUS FAMINTO. TENHO AO NORTE MEU SUL.

10/15/2009

A VASTIDÃO CONTIDA NESTE DETALHE É SOBERANA AOS OLHOS DA FOME. ATRÁS DA ESSÊNCIA HUMANA; À PROCURA DE LÁBIOS FERINOS E DENTES CANINOS. EM MIM É DESALENTO E INSÔNIA, MINHA ALMA NÃO DORME. É TODA A PAISAGEM NA PERSPECTIVA OCULAR. O MUNDO É O QUE VEMOS, MAS HÁ MAIS, ALÉM DE NÓS MESMOS HÁ VÁRIOS OUTROS QUE OLHAM NO MÍNIMO E ESCONTRAM TUDO. MINHA ESPÉCIE ENTRA EM GUERRA CONSIGO MESMA, POIS VÁRIOS CLÃS VIOLARAM AS REGRAS DE CONVIVÊNCIA E OSTRACISMO. FICAMOS TODOS EXPOSTOS, FEITO OSSO ATRAVÉS DA CARNE QUE SUSTENTA O GESTO ÚLTIMO DE UMA VÍTIMA TRIVIAL. DE TODO O ESPANTO QUE CAUSEI EM PÚBLICO, NUM GUETO DE PRAGA, NA CIDADE VELHA, TERRITÓRIO DOS VALAIS, CÃES DESUMANOS SEM CREDO OU GOVERNANÇA, NÃO ERA INTENÇÃO ME REVELAR ÀQUELES QUATRO, ÉBRIOS E EQUILIBRISTAS, MAS ELES VISLUMBRARAM MEU ATO MORTAL E FAMINTO.

10/06/2009

É POR ONDE A ESPÉCIE HUMANA INICIA QUE SE ETERNIZA

O CORAÇÃO DE UM HOMEM; À BEIRA DE UM CROMOSSOMO,

NOS LÁBIOS DE UMA ENZIMA FLORAL, CUJO AROMA SUTIL,

PREENCHE AS EROSÕES DA REPLICAÇÃO, FEITO A BRISA

RIBEIRA QUE LAPIDA O DESEJO E A SEDE IMPLÍCITA DO HOMO,

EM QUERER EXISTIR PARA SEMPRE DE UMA FONTE PUERIL.

10/02/2009

cena livro vampiro

EU CONHEÇO BEM SEUS ATRIBUTOS, PRECONCEITOS E SEGREDOS. PARTICIPO DA HISTÓRIA HÁ QUINHENTOS ANOS, E OS VI SE DESTRUÍREM, ARRUINAREM-SE E ENTÃO ERGUEREM-SE. HÁ UM INSTINTO DE DEGLADIAR, COM UM GESTO BELICOSO ACARICIAM A FACE SENSÍVEL DA BELEZA. DESPETALAM-SE FRENTE À BRISA E A CALMARIA, SUCUMBEM AO SOPRO ÍNTIMO DE UM PREDADOR. (TAQUIPNÉIA REPENTINA E TREMORES MUSCULARES CAUSAM MOVIMENTOS INVOLUNTÁRIOS NO PROTAGONISTA, QUE CAI AO CHÃO E TEM VISÕES DE UM PASSADO DE GUERRA, CRUELDADE E DESESPERANÇA, TEM SEDE E SEGUE UM CORREDOR ATÉ UMA SALETA- DE-ESTAR, COM AS PAREDES ENCRUSTADAS DE LIVROS E MULTIMÍDIAS VARIADAS, UM MONITOR LSD E UM FRIGOBAR, À MEIA LUZ, POR UMA PASSAGEM SECRETA DESCE ATÉ O PORÃO ONDE SE AUTO-ADMINISTRA UM PLASMA DE NANOFERRAMENTAS, QUE SE DIFERENCIARÃO EM TECIDO HEMÁTICO, VIÁVEL POR VINTE E SETE DIAS, DIMINUINDO A NECESSIDADE DE SE ALIMENTAR COM FREQÜÊNCIA).

9/25/2009

... no invisível de um gesto desumano, enclausura-se o amor e a esperança. Pelo breu inominado do olhar sedento logo após a transformação. Um resquício de desejo em mim pela vida, se nega a penetrar meus caninos na jugular exposta aos meus lábios entreabertos, seria condená-la ao vazio dos dias e à eterna noite a cobrar de mim tantos ml de sangue. Num instante essencial ela olha e me encara, e pede que finalize o ato com um beijo em seu pescoço. Eu reluto e a deixo, desorientada no leito fecundo da perenidade, sob um lençol branco e a luz receosa em elucidar minhas lágrimas bestiais. Sinto tuas mãos tocarem meus ombros devotamente, a me virarem de frente e ao avesso, então renego minha natureza, repudio este instinto mortífero e insaciável que faz o tempo me relevar, abandonar-me para sempre. Nunca faria isso por aquela que amo, e procuro sua boca sofregamente, avidamente, agora.

9/23/2009

COSTUMO OBSERVAR PLANETAS E ESTRELAS ANTES DE FINDAR A NOITE. HOJE ABSERVO NETUNO. ESTOU NUM OBSERVATÓRIO PARTICULAR, EM MINHA RESIDÊNCIA. CONHEÇO ESTE FIRMAMENTO, VI VÁRIOS COMETAS CADENTES, SINTO FALTA DE ALGUMAS ESTRELAS. A SOLIDÃO DE UM ASTRO E O BREU QUE CIRCULA A LUZ DO SOL, QUANDO CHEGA A AURORA COM SEU MANTO RUBRO, QUE ESCORRE PELOS MEUS LÁBIOS AINDA CRAVADOS NO PESCOÇO DE UM HÓSPEDE, NUM INSTANTE ÉBRIO E INSTINTIVO DO ANIMAL QUE ESCONDO PELA MANHÃ. CONSIGO RESISTIR À LUZ SOLAR, USANDO UM GEL DE NANOPROTETORES, QUE ABSORVEM OS RAIOS SOLARES E OS DISSIPA COMO ENERGIA MECÂNICA, A CADA GESTO.

9/17/2009

Fosse carvão nos dedos de Deus, que criara o fogo num gesto súbito e certeiro, apontado para o peito de um dragão ferido. Viesse cavalgando um corcel negro no branco da areia, matinal, tendo o vento e a vida ao encontro de seus olhos. Mas na carne do cotidiano representa uma família faminta. O desemprego e a fé quase se equilibram e então pelo desamparo a desesperança cresce e torna órfão a cidadania. É quando Deus retorna no coração de tantos, que se ajoelham e agradecem a graça, aqueles que rezam e se confinam, no celibato essencial à teologia, pelo mesentério humano que contrai nossa alma quando morre uma criança de fome, de repente, agora. No final da tarde há um cheiro de gente, que entardece a vontade, torna imóvel o desejo. Nuvem rubra e vespertina, traz o frio e a navalha. Estivesse com o ventre na reta, sentiria o metal por dentro, fosse aquele meu instante derradeiro, sem adeus, com saudade, para sempre.

9/08/2009

... acoplado ao material genético de um vírus está um "eritrócito sintético"(qual material ? citar.), envolvido por uma capa proteica, que migra a qualquer lugar onde aja vasculatura viável, ou por "quimiotaxia nanotrônica" (existe este conceito?), específica e inequívoca, para a manutenção da homeostasia. Administrada como vacina, com memória imunológica por dez anos e mecanismo de reparação tecidual completa instantânea, através de depósitos de grânulos de fatores de crescimento e glicogênio, equivalentes à reconstituição de sessenta centímetros cúbicos de área corporal, com pluripotência orientada pela "informação" (que tipo? como se faz?) gerada pela quimiotaxia. Todo o tecido sangüíneo substituído por nanorobôs que garantem a homeostase por um período de dez anos, com segurança, sendo reverssível e cujo "antídeto" é a auto-hemotransfusão (melhorar este conceito. Por quê?) com seringa ...

8/22/2009

ESTOU EM DUNAKESZI, EM DIREÇÃO À MAGYARORSZÁG(BUDAPESTE), PELO DANÚBIO, NUMA EMBARCAÇÃO MENOR E MAIS RÁPIDA, PELA NOITE QUE SE ESTENDE E ME DEVORA COM UMA FOME ... A TRIPULAÇÃO É HUMANA, SÃO MERCENÁRIOS E PIRATAS, SEM ESCRÚPULOS, ESCÓRIA.

8/16/2009

livro capítulo

Florença é uma região turbulenta e marcada pela desvalorização da vida e instabilidade política, com a família Médici no poder, mas sempre ameaçada por famílias e interesses contrários aos seus. Pessoas são assassinadas em função de bostos mal desvendados, num tempo e lugar perfeitos para alguém de minha raça se estabelecer por um tempo, sem chamar muita atenção.

O Império Otomano avança por terras vizinhas, se aproxima da Itália, há guerra pelos quatro cantos do continente, e minha sede me atormenta, insaciável mesmo no campo de batalha, em meio à carnificina. Sinto um maior controle em relação a tal instinto, mas sei a besta que sou, o predador que posso me tornar. Não sirvo a nenhum rei, não tenho pátria, persigo uma paz que me afaste de minha origem e não me torne mortal no caração de uma mulher. Estou próximo do rastro de (nome), o alcançarei distraído, terei seu canino antes do fim desta estação(memória da morte de sua amada há cem anos/séc. XIII). O ano é de 1407, Florença ferve culturalmente, mas a arte bélica ainda tem sua prioridade ante a cobiça de ciades-estado vizinhas. Ouvi falar de Leonardo da Vinci, tenho vontade de conhecê-lo, me interessa a ciência e a arte e parece que ele é um grande mestre. Me alojei numa estrebaria, não trago muito dinheiro, e gosto dos odores dos mortais, que deambulam etéreos pelo corredor escuro que leva aos pequenos quartos quase sem privacidade. Procuro seguir os hábitos dos homens, me acostumar com os padrões sociais, assim é mais fácil não levantar suspeitas, é importante ser absorvido pelo cotidiano, ficar no ostracismo é a melhor estratégia para um caçador. Me dirijo ao atelié onde Da Vinci se encontra, segundo informação de um comerciante de obras-de-arte. Tenho uma encomenda.

8/06/2009

Julgamento eterno

Tão veloz que invisível foi o gesto que o derrubou.

Como sequência uma palavra de ordem foi dada.

Todos estáticos e em silêncio, e alguém "rosnou".

Consequência de uma mordida vital e mais nada.

Havia um júri desatento e testemunhas não julgadas.

Pela essência da noite misturada à lua escorria

o sangue dos odores, e o aroma de quem sangra

tem o cheiro de sua boca. Imortal porque não morria

e fulgás por inspiração. A última carta na manga.

7/16/2009

OSCILAÇÃO

Por detrás das bananeiras, no ventre de um réptil ou no hiato de um poema,

tudo vê e se move, no lamaçal burocrático da vida pública, no comum do dia,

por entre as entranhas da urbe, pelos becos, pela penumbra da Democracia.

A tudo se corrompe e estravia, desfigura. Nem "a educação pela pedra", pena,

resolveu o dilema de Drumond, o obstáculo figurado do desenvolvimento.

Feito uma pseudociese, um engano proposital, segue a Vida, no fluxo de caixa,

na jaula financeira que toma a coragem de crescer. O Capital deste momento

não é humano, circula por tantas mãos que não gesticula, se alastra e baixa.

7/09/2009

livro - início de capítulo

È no cheiro da terra que repouso meus dentes, afio minha alma na lâmina de uma pedra, risco o rio feito o couro de um salmão, vou correnteza acima até a calma de um ribeirão, leito sereno, onde então procrio e desço de encontro ao mar, de encontro a minha própria vida, oposto ao destino e alheio ao público, feito segredo de poucos, trono de Morfeu. Reinicio cada instante que se parece com a eternidade. Tenho mãos atadas ao adeus, sou só saudade. Melhor viver à margem que ser correnteza. A vida é breve e cabe num soneto, o poema pode ser para sempre... Tenho sede e fome. Observo do telhado aqueles que caminham pela noite e me espreito num beijo faminto e em caninos saciados.

7/04/2009

Já fui avesso às palavras retas, traço
solto na eventual calmaria, sempre
ao redor do Mundo feito atmosfera.
Deus se origina em Mim, é o que faço.
Fui convocado então ainda no ventre,
para ser Aquele que acalma a Fera.

Fiz silêncio por décadas, mas gritei
há três dias. Clamei por meu Reino,
enfrentando a covardia e o imoral.
Meu nome é fragmento do inteiro,
o resto é Ele.

6/27/2009

Só abro as asas à beira do precipício,

frente à queda livre e ao desamparo.

6/16/2009

RAIZ

POR MUITO TEMPO FICA FRENTE À JANELA

SEM CALAR O VENTO OU TER NOITE CLARA.

A CHUVA EM SEU ROSTO É LÁGRIMA DELA,

QUE ESCORRE PELA BOCA E É TÃO RARA.

O SILÊNCIO COTIDIANO ENCURTA O DIA.

HÁ PÁSSAROS ESPALHADOS PELA CASA.

CAMA SIMPLES E FORTE, É QUASE CHÃO.

TEM FILHA E FOME, SE ALIMENTA E CRIA

ARMADILHAS PARA A MORTE, CRIA ASA

E LIBERTA-SE DAS PAREDES, VOA ENTÃO.

O OLHO DELE.

FOI COLHIDO DE UMA TEMPESTADE, ERGUIDO AO AR,

PELA FÚRIA DE UM GESTO EÓLICO. ENTÃO CIRCULAVA

TODA A PROPRIEDADE EM BUSCA DE UMA CALMARIA.

TRAZIDO PELA FÉ E SENTENCIADO A SOFRER, E AMAR

A DEUS ACIMA DE TUDO. POR DENTRO FEITO LARVA

QUE NOS ENTRANHA, OCO DE UMA ESPIRAL, NOS ESPIA.

6/12/2009

SEM PALAVRAS

Desta vez fui além da palavra para encontrar
significado para este silêncio que designa tudo.
Mais amplo que si mesmo, disperso pelo ar,
feito o odor doce da dúvida neste céu de veludo.

Não há pássaros noturnos neste céu isento
de lua, nem o que ilumine o semblante agora.
Permaneço quieto para entender por fora
toda a pedra que há em mim por dentro.

Sou o artesanato em praça pública, exposto
ao desejo de alguns, ao tato do verbo insensível,
que me resvala a boca e se emudece. Poço
sem eco a dar resposta ao Mundo, inaudível.

Gesticulo enfim, mimetizo por um instante
todo o vocabulário deste corpo, dou adeus ...
A palavra que escorre de meu peito, infante,
não sou eu ou aquilo a ser dito, e me emudeceu.
Eis que estou sem voz para entender a fala,
para me degustar entre fonemas, ser Eu,
diante de tudo isto que agora me cala.

5/30/2009

FAÇA PAZ

VIVO PENSANDO EM MELHORAR

A VIDA QUE JESUS ME DEU; EU

QUERO ENTENDER E ORAR,

PEDIR POR MIM E OS MEUS.

O MORRO É O MEU PAÍS.

"tÔ ARMADO PRA DEFENDER".

NÃO SEI SE SOU FELIZ.

ÀS VEZES ATIRO E PRONTO.

"É A MINHA VIDA PODE CRÊ".

E REZE TAMBÉM, PEÇA. ENTÃO

LEMBRE-SE: O CONFRONTO

É A NOSSA EXTINÇÃO.

5/16/2009

FRONTEIRA

O artefato passou a centímetros da minha têmpora

e perfurou o vaso d'água acima do último degrau.

Surgem os vultos ligeiros de mãos ríspidas, nuas

frontes frente ao semblante único e diverso do mal.

Ainda no convés, tendo lançado a pouco a âncora

eu aguardo o segunto ato. Já vi no mar muitas luas,

conheci monstros e sereias, Netuno me orienta.

Eles avançam para a palidaçada, até a trincheira

que me separa dos atos mortais de um nativo.

O artefato passa a centímetros de mim a zunir.

Pelo amarelo da cana surgem vários, cinquenta

guerreiros Goytacazes, invadem a vila, a feira

e os domicílios dos colonos, saqueiam o cultivo,

nos expulsam pelo mar ou terra. Estão aqui ...

4/23/2009

Mimetismo Divino

Se você ficar três horas à beira de um rio com os pés na água

a correnteza te torna leito. Quando então de braços abertos

darás limites às margens a caminho do mar, no veio do chão.

Pela praia seu rastro lambido pelas ondas súbito se apaga.

Se soprares no vento uma palavra de ordem estejas certo

que se fará ouvida. Tens no gesto a alma de um furacão.

Não deves se misturar aos mortais, seja elemento e só.

Traz angústia ver um homem definhar, uma criança

desfalecer, a Tuberculose definir alguém, "é de dá dó".

Seja Deus, por favor nos salve, não nos dê esperança.

RECORDAÇÃO

Tem que haver um tempo em voltamos à infância.

Uma tarde para fazer uma pipa ou para jogar bola.

Memória é tudo que resta daqueles dias, e a ânsia

em querer voltar àquela manhã, fugir da escola.

Melancolia é o alimento da saudade, querer voltar.

A eternidade está nas coisas vindouras. Importante

é ser lúcido para perceber que o essencial é estar.

A ausência é esta vontade daquilo que era antes.

Os amores se vão, as pernas se vão, aqui fico Eu.

Entre fotos e sorrisos, no silêncio de um dia.

De mim só tenho lembrança, outra fotografia.

4/15/2009

CRONUS DEI

Trouxe o tempo para a estante de livros. Envelheceu

entre as estórias e as orelhas, foi intérprete não de si,

mas de outros, muitos que fizeram parte desta vida,

deste lugar que construíram com as mãos, de alma.

Feito de finitude e atemporal, circula um só Deus,

que engendra o moinho celeste e o quadro de giz,

onde o destino é escrito. Resta a memória aguerrida

ao homem, ventral a uma mulher, tempestade calma,

que nina sua filha e acorda seus cães, noite serena,

e dez galos se anunciam pela madrugada. Sem lua,

na escuridão, tece a manhã através de um verso.

Vai rente ao chão, o cio derramado pela cobiça,

e um séquito desejoso e fulgás. Durante a cena,

ela se recusa ao papel, apaga os fonemas de sua

fala, emudece seus atos, dá um grito ao inverso

e cai. Deixa ao tempo a eternidade implícita.

4/10/2009

FLUIR

È preciso separar-se do resto de alguém

para se esquecer por outro. Se doar então,

sem meio nem chegada; ir ainda mais além.

O que resta de si é para sua orientação,

para que não se esqueça do outro lado,

que foi seu solo, sua fé e sua herança.

O Sujeito se refaz, a alma nem tanto.

Por fim busca o encontro, o afago,

se afugenta num Objeto, se cansa,

se desprende e esquece o quanto.

4/01/2009

Para Layza adormecida. Para Maria Luiza acordada.

Só há o cheiro de pedra, o odor de terra molhada,

de solo batido, estrada-de-chão. E um verde nú,

que envergonha os olhos de tanta beleza; nada

se compara ao olhar. Diz tudo de qualquer um.

Ela abre os olhos frente a mim. E a chuva cai

de encontro à janela, entra uma luz abafada

com insetos oníricos, e tantas cores e fadas

que a vida agorá é só imaginar, feito pai,

feito mãe, eternamente ...

3/28/2009

AMAUROSE LÍRICA

OPTOU PELA LOUCURA COMEDIDA, PELO ATO-FALHO PROPOSITAL,
ENFIM, PARA TRANSFERIR AFETO E OUSADIA A UM BRAÇO FERIDO,
UMA ALMA ASSALTADA POR UM SOPRO. PELOS CANAIS E BECOS
DE PRAGA. PAISAGEM CENTENÁRIA, ÁRVORES E PÉDRAS, O SOL
QUE ME ELUCIDA NESTA MANHÃ DE SOMBRAS, DE GALHOS SECOS,
ENRAIZADOS NO JARDIM PARTICULAR, CUJO OUTONO JÁ FORA TIDO.

CRESCEU ENTRE A MARGEM E O CHÃO, EM SILÊNCIO, SEM PROPÓSITO.
FREQUENTOU O ÁTRIO REPLETO DE AUTORIDADE, CIRCULOU NO RETO,
IGNORANDO A CURVA, FOI FLUXO, CIRCULATÓRIO, EVITANDO O ÓBITO.
ROMPEU PONTES E AMPAROU CIVILIZAÇÕES; SE CONSTRUIU DISCRETO.

A CHAMA ME FEZ UMA PROPOSTA NA ESCURIDÃO E EU NÃO A SOPREI.
PELO QUARTO UMA PENUNBRA CONFUNDE-SE COM O VULTO DE DEUS.
- TENHO FÉ POR CADA DEGRAU DESTE ALTAR SEM NOME, QUE DESEJO!
NA MANHÃ O VENTO INVADE O SONHO, ME DESPERTA E APAGA O FOGO.
A VELA CONSUMIDA É O TEMPO IRREPARÁVEL. FUI ETERNO NUM BEIJO,
QUE DUROU MINHA VIDA. AGORA PENSO NAQUILO TUDO QUE DESEJEI,
E VEJO NA INEXISTÊNCIA O MOTIVO DIVINO PARA SER TUDO DE NOVO,
E ACENDER NO CREDO AQUILO QUE QUEIMA A CARNE DE VONTADE: EU.

3/14/2009

METAMORFOSE

Ele acendeu seu cigarro com uma brasa restante
e um silêncio letal, que alcançou a face de Deus.
Havia sido argüido sobre a fé de seus atos diante
o Altar, onde jaz a credulidade em alguns de seus.
Qual semelhante, que procura em mim si mesmo,
me observa como se visse a si próprio e imitava
gestos meus. Na penumbra daquela manhã dava
para ver que o forasteiro não estava ali a esmo.
Só o vento sopre e arrasta galhos e folhas da gente.
Relâmpagos anunciam sua passagem, às vezes chove.
Até que os cães não ladrem, não estranhem a mim.
Estarei em casa quando a dor que então me comove,
cessar subitamente e fizer adormecer a fera. Enfim.

2/26/2009

INVISÍVEL NOTÓRIO

VIESTES MEDIR FORÇA CONTRA O ESPÍRITO DO HOMEM?
DESCRENTE E SERENA, OBSERVA O COTIDIANO POR HORAS.
QUAL ESTÁTUA OU ESFINJE, SALIVA SOBRE A AREIA FINA,
QUE ENCOBRE SEUS PÉS. FRENTE AO TEMPLO. E SOME.
EM SEU LUGAR FICA UMA SOMBRA, POR DIAS, AURORAS
SE VÃO E SEU VESTÍGIO ENCOMODA. É ALMA VERSUS SINA.

2/22/2009

SÓ POR AGORA

A matéria do tempo é o cotidiano; o detalhe da vida
é estar alheio às horas, esquecer-se entre olhares ...
A eternidade é ninar um filho, sorrir ante o desafio
e dar a mão como amparo. É ter uma palavra lida
e um verso para dizer, para sempre. Instantes aos pares
são aliados da juventude, são momentos no cio.

1/28/2009

Quando nasce a primeira flor não há palavras para definir o jardim.

Ao infante choro da manhã à procura de céu, de mar, da gente,

que acorda, mas não desperta de súbito, a princípio é assim ...

no dia em que Ela chega e espalha um aroma úncio de repente.

É preciso calma para a urgência do Amor, para o fruto e a boca.

É de uma serenidade que adormece. Se há sonhos não sei,

mas dorme feito anjos que articulam o desejo inicial da vida.

1/01/2009

O que as palavras farão por mim?

E aquilo que não tem nome então?

Depois do silêncio que há em tudo,

quero um verso que não tenha fim,

na voz de um poeta dantes mudo,

com afinidade por minha emoção;

não quero fonemas desatentos

ao ritmo, nem rimas brancas.

Fica o verbo inútil e isento

ao gesto, um adeus às tantas ...